terça-feira, 13 de dezembro de 2011

O Mudo Desbocado





Palavra solta...
Da boca, desbocada
Na mesa da beira
Incerta e certeira
Na mesa da beira
De um pulo e susto
Do sussurro no ouvido surdo
Mudo, eu mudo, re-mudo
Calo, re-calo passo a vez
De ser, não ter palavra certa
Corta a seta que indica a meta
Palavra solta da boca
Sem voz, meu Deus...Que medo
O tenho guardado no armário
De poeira da língua suada
Sem nada, sem tudo
Com tudo isso no meio,
No canto, em baixo, mais baixo
Quase mudo, sussurro
Palavra solta da boca
Sem dente, contente
Sem sorriso, teu riso
Na boca de canto
Eu canto, no canto do quarto
De um lado mais claro,
É claro! no escuro da cor
Sabor do que tem na dor
Prazer, sou eu que vim
Pra cá de lá, acolá
Levar pro altar o gosto
Desgosto de ser sem tom
Sem som pra ouvir na varanda
Vai...Anda, caminha
Com... A minha mão na mão
Enquanto canto de canto
Do pescoço, pescando teu osso
A sorte de dizer e repetir
Pedir, uma palavra
Solta da boca.

Foto - Imagem extraída (Google).

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Cantoria Seca ( O Homem do corpo de Palha)


Sou rasteiro no chão de terra batida
De preguiça carrego a cruz de pau-de-buriti no curvado da coluna
Pelo mato adentro corto o peito, aberto
Pra espinho nenhum botar defeito
Os lábios secos que até a própria seca não habita mais
Meu chapéu de sol escaldante esquenta a moringa da cabeça vazia
E os pés que carregam entre os dedos a poeira de mais um dia na labuta
E o traço que deixa pela areia 
Onde a morte na sombra vem pisando, com destreza a apagar meus rastros
E o pássaro do corpo de gravetos que pousava
Na última ponta da árvore que restara nesse pedaço de locação
Onde anda teu cantar que ecoava pelo vento evaporado
Que fundia-se ao som da porta rangendo e do sino do gado caminhando?
Que lembrava até o sino da capela anunciando a partida de um cristão dessas redondezas
O mesmo anunciava assim a chegada de minha fome
A gula que restava num saco de farinha furado
Encostado na cartucheira de enfeite
Que ao menos servia-me de afugento da maldade
De que sorrir? Se o sorriso meu enferrujado descoloria
Ainda mais a tinta da parede de reboco salgado,
Tudo é sal, menos o jarro de barro humedecido
Aqui água tem sabor, tem gosto de vida, de terra
E o tudo tem gosto de terra, de osso, que até o nada inveja não ter nada pra gostar
Se os versos me faltam pra prosear com a solidão sentada na cadeira da varanda
Que emite o som igualzinho o carro de boi
Engulo a palavra antes de gritar e salivo pra brilhar o céu de minha boca.
Abro os olhos só de manhãzinha,
Que é pra abrir a porta pra aurora correr no corredor
E dar na porta do fundo aberta,
Essa é a única luz de que tenho vontade de ver
E este homem que no corpo corre sangue de café
Inveja em não poder ver com esses olhos de canela desbotados
A paz vindo dizer : Eu vim lhe visitar!

Foto-Imagem extraída (Google)

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Meu Sapato






Os pés sujos, nus e secos
Rachados, carregados de poiera entre os dedos
E o sapato úmido e lamassado estreita um olhar direito
De que andar, caminhar por entre os mesmos?
Questionava o chão de terra batida entre os seios.


Foto (Rafa Oliveira) - Sapato Sentado .

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Pensamento Único.



"Saudades Renascem em todo Fim de tarde, quando a noite vem buscar o dia para um passeio que dura uma saudade inteira"



Foto-imagem por R. Oliveira ( Nascer do sol em macaúbas)

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Canto Estradeiro ( A volta da Menina-Flor)

         

Adorna teu sorriso na estrada
E o bolso vazio de cansaço,
Escaço os passos, sozinha no pó das pedras
E a boca de poeira e sal
Do sertão, minha seca de saudade
Eis os lábios teus, salgados de mar
Ou apenas desbotados pelo sol.
Há apenas um motivo que lhe move,
Um dia e uma noite sem tristeza
Minha certeza, procurar-te
Pelo caminho das cercas
Estas de pau e arame que trilham as pegadas
Ao encontro,
Apanhar um cheiro de volta,
Um prefixo de um canto estradeiro.



(Foto-imagem cedida por D. Fabrícia)

Corpo de Terra

       

Canto I

Eis tua porteira,
E o chão virgem que teus pés tocam
Descalça-te e role no tapete de folhas secas
Que o sopro espalha sobre o corpo da terra ingênua
Num rodopio adentro de um túnel verde.

Canto II

O dia vestiu-se de homem
E o homem vestiu-se de terra
Num corpo inerte de poeira
No carnaval que dançava ao vento,
No grito do corpo castanho.

Canto III

Eis tua fúria,
Que o sopro queria arrancar o corpo castanho
Da terra-mãe,teus braços esticados ao céu
Como se uma reza obrigasse-a dançar sem música
Teus pelos soltavam-se pela ventania
E perdiam-se na angústia que o mar celeste chorara.

Canto IV

Eis tua bebida,
Aquela que salva e mata
O corpo agora desmancha-se e o que era pó vira lama
- Eu perco agora meu Deus, minha cor de terra seca!
Teus pés agora nus, ferem-se
E o rastro de tua vida adorna o solo
Que agora encharcado abriga teu corpo nu.

Canto V

Eis tua luz no final do túnel,
Banhar-se no gozo que sobrou da fúria
Enquanto o frio corrói as unhas que cravaram na carne,
Na pele do corpo castanho o prazer da fertilidade.

Foto-Imagem R. Oliveira (Porteira Coité).

As pedras de São salvador

Vou de ponta a ponta,
Nas tuas costas de espuma
Beirando pedras que não morrem
Não se movem,apenas abatem-se no colapso do sal
No sonho de afogar-se no leito
Segura-te na viagem!
De um lado meu concreto opaco
Do outro meu corpo multi-cor.
Ainda hei de escapar, rolar,
Roçar nas espumas, numa imensidão
Que me contenta apenas no coração de pedra!


Foto - Imagem : R. Oliveira ( Salvador , Amaralina)

quarta-feira, 18 de maio de 2011

In Versos

        

Voava nas chaminés que ofuscavam o papel
E feria-se a pele pálida
Com cinzas das curvas certas
Meu quebra-cabeça no balanço
Inverso, invertido, incerto.
Dava a luz ao desconhecido
E que ao mesmo tornava-se íntimo,
Das minhas entranhas.



Foto- Desenho ( R. oliveira).

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Desenho de Teto



Meu elemento único,
A pureza da mancha na roupa
As cinzas manchadas nos dedos
A sorte por sorte sem medo
Meu dia e noite acesos
Na luz acoplada no bolso
E pálido que seja meu rosto
Tem força pra rabiscar o teto,
Incertos, meus traços que fingem ser novos.

Foto- Desenho (Rafael Oliveira) Psicodelia.

sábado, 7 de maio de 2011

Se Agarro

 

Nas pontas dos dedos acendo-lhe
E com os mesmos me conforto
No fósforo, no pós-angústia
Minha alegria seca de doçura
Abro as pernas e lhe apoio,
Na gangorra dos dedos que se movem
No prazer que a ti pertence
Me apaga e me acende,
Num piscar, num riscar de olhos.

Foto- Imagem extraída (Google).