Canto I
Eis tua porteira,
E o chão virgem que teus pés tocam
Descalça-te e role no tapete de folhas secas
Que o sopro espalha sobre o corpo da terra ingênua
Num rodopio adentro de um túnel verde.
Canto II
O dia vestiu-se de homem
E o homem vestiu-se de terra
Num corpo inerte de poeira
No carnaval que dançava ao vento,
No grito do corpo castanho.
Canto III
Eis tua fúria,
Que o sopro queria arrancar o corpo castanho
Da terra-mãe,teus braços esticados ao céu
Como se uma reza obrigasse-a dançar sem música
Teus pelos soltavam-se pela ventania
E perdiam-se na angústia que o mar celeste chorara.
Canto IV
Eis tua bebida,
Aquela que salva e mata
O corpo agora desmancha-se e o que era pó vira lama
- Eu perco agora meu Deus, minha cor de terra seca!
Teus pés agora nus, ferem-se
E o rastro de tua vida adorna o solo
Que agora encharcado abriga teu corpo nu.
Canto V
Eis tua luz no final do túnel,
Banhar-se no gozo que sobrou da fúria
Enquanto o frio corrói as unhas que cravaram na carne,
Na pele do corpo castanho o prazer da fertilidade.
Foto-Imagem R. Oliveira (Porteira Coité).