Sou rasteiro no chão de terra batida
De preguiça carrego a cruz de pau-de-buriti no curvado da coluna
Pelo mato adentro corto o peito, aberto
Pra espinho nenhum botar defeito
Os lábios secos que até a própria seca não habita mais
Meu chapéu de sol escaldante esquenta a moringa da cabeça vazia
E os pés que carregam entre os dedos a poeira de mais um dia na labuta
E o traço que deixa pela areia
Onde a morte na sombra vem pisando, com destreza a apagar meus rastros
E o pássaro do corpo de gravetos que pousava
Na última ponta da árvore que restara nesse pedaço de locação
Onde anda teu cantar que ecoava pelo vento evaporado
Que fundia-se ao som da porta rangendo e do sino do gado caminhando?
Que lembrava até o sino da capela anunciando a partida de um cristão dessas redondezas
Onde anda teu cantar que ecoava pelo vento evaporado
Que fundia-se ao som da porta rangendo e do sino do gado caminhando?
Que lembrava até o sino da capela anunciando a partida de um cristão dessas redondezas
O mesmo anunciava assim a chegada de minha fome
A gula que restava num saco de farinha furado
Encostado na cartucheira de enfeite
Que ao menos servia-me de afugento da maldade
De que sorrir? Se o sorriso meu enferrujado descoloria
Ainda mais a tinta da parede de reboco salgado,
Tudo é sal, menos o jarro de barro humedecido
Aqui água tem sabor, tem gosto de vida, de terra
E o tudo tem gosto de terra, de osso, que até o nada inveja não ter nada pra gostar
Se os versos me faltam pra prosear com a solidão sentada na cadeira da varanda
Que emite o som igualzinho o carro de boi
Engulo a palavra antes de gritar e salivo pra brilhar o céu de minha boca.
Abro os olhos só de manhãzinha,
Que é pra abrir a porta pra aurora correr no corredor
E dar na porta do fundo aberta,
Essa é a única luz de que tenho vontade de ver
E este homem que no corpo corre sangue de café
Inveja em não poder ver com esses olhos de canela desbotados
A paz vindo dizer : Eu vim lhe visitar!
Foto-Imagem extraída (Google)

