segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Carta pra Brigitte




Brigitte,
rabisco esse papel em resposta
ao seu sinal de vida perfumado
que me chegou essa manhã 
na caixa do correio.
É... a cidade tá me devorando,
acabei acostumando até,
to passando muito tempo
com a cara na janela espiando
os outros devorados,
que procuram os vazios dessa cidade fria,
é tanta pressa, que eu acho que a cidade
nem consegue digerir esse tanto de gente.
Todo dia eu planejo uma forma
de deixá-la com dor de barriga,
minha única diversão.
Eu queria era ser vomitado pra perto
daquele sol que tu levou daqui,
que eu vejo no fim do dia,
escondido atrás do Edifício Bela Vista,
lembra?
nome sem sentido, Bela Vista!
Não sei pra quem!
Lembrei da gente sentado
no terraço do prédio aqui,
jogando papo fora,
tu dizia que tudo isso era muito grande,
mas de noite o que a gente enxergava
era só um formigueiro de luzes.



 




foto-imagem extraída (Google).

domingo, 6 de outubro de 2013

O bloco da manhã - canção de domingueira



Os teus raios chegaram
iluminando a domingueira,
tornando o café da manhã
ainda mais suado.
Eu era aquele que recebia
na varanda, tua luz a alfinetar
os olhos baixos.
Ah sol, eu quase
não penso em você,
mas há a tua insistência
de não sair da minha cabeça.







foto-imagem extraída (Google).

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

A ânsia que antecede o pouso



Eu acabo o dia
sobrevoando nos perfumes
que dançam nos ventos,
com uma vontade
desprendida do medo,
são as asas cansadas
de tanto serem rebatidas.
Eu sou um passarinho
que se desprendeu
da gaiola e que
procura um dedo
pra pousar,
descansar do voo.








foto-imagem extraída (Google).

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

No dia em que a surdez nos pegou



A cidade nos devorou
nessa manhã
e seu gemido impetuoso
nos acordava,
erguiam-se os longos
corpos de concreto,
na poeira que pousava
nos últimos fios de cabelo
do velho que vinha, acinzentado.
A gente se espriguiçava
na lentidão, no prazer
de dar a última carícia
nos travesseiros
e esticando as caras
pra fora da janela fina,
era o momento de gargalhar o dia.
A cidade nos devorou,
no dia em que acordamos surdos.






foto-imagem extraída (Google).